Estima-se que cerca de um terço da população portuguesa sofra de alergias, sendo a sensibilidade ao pólen (polinose) muito comum, especialmente na primavera. muitas vezes cruzada com uma sensibilidade aos pêlos de gato ou aos ácaros, que se traduz por em crises de espirros, sensação de picadas nos olhos e nariz entupido, quando os pólenes se difundem no ar. E a sua prevalência e duração não pára de aumentar. Nos últimos anos, têm sido abertas numerosas pistas de investigação, incluindo a exploração das ligações entre a reação aos pólenes e o equilíbrio da microbiota intestinal.
A polinização (emissão de pólen) é a etapa essencial da reprodução das espécies vegetais. Nas plantas anemófilas, a fecundação realiza-se graças ao transporte aéreo do pólen dos gâmetas masculinos (estames) para o (ou os) gâmetas femininos (pistilo). As plantas entomófilas são fertilizadas por insetos que transplantam o pólen da flor masculina para a flor feminina.
Quanto mais prolíficas forem as árvores e mais pequenos forem os grãos de pólen, mais tempo permanecerão no ar e maior a probabilidade de entrarem na árvore respiratória humana. Algumas essências são mais sensibilizantes do que outras.
Esta sensibilidade, designada por polinose, parece ser favorecida por uma componente hereditária (70% das pessoas), um ambiente demasiado assético na infância e um aumento na poluição do ar exterior e interior. Estas reações devem-se a uma desregulação do sistema imunitário, que deixa de tolerar o contacto com substâncias a priori inofensivas (pólenes, poeiras, alimentos, ácaros, etc.) e desencadeia naturalmente uma resposta destinada a eliminá-las. A resposta imunitária é desencadeada por substâncias presentes nos grãos de pólen (proteínas ou glicoproteínas), que são identificadas pelo organismo como sendo nocivas, e traduz-se, em especial, por uma produção de anticorpos específicos da alergia - as IgE (Imunoglobulinas E). Os testes cutâneos permitem determinar quais os elementos sensibilizantes.
Naturalmente que, perante um ataque por patogénios, várias respostas imunes se organizam para defender o organismo e, do mesmo modo, vários sistemas são solicitados, incluindo o intestino, que detém 70% das células do sistema imunitário.
As células imunitárias do tecido linfoide do intestino, designadas por GALT, recebem informações transportadas pelos compostos alimentares, as bactérias da flora intestinal, os vírus, os fungos, os parasitas, etc., além de sinais emitidos pelas células epiteliais do intestino.
Quando é desencadeado o processo defensivo, as bactérias intestinais desencadeiam a produção de citocinas, que, à distância, vão permitir que as células imunitárias comuniquem entre si. Os glóbulos brancos vão então diferenciar-se em linfócitos (a chamada polarização linfocitária) e, deste modo, vários tipos de linfócitos desempenham as suas funções: Th1, Th2, Th17, Th22, e linfócitos reguladores.
Para que este processo delicado funcione, é preciso que a microbiota reúna uma grande quantidade de bactérias e uma diversidade de espécies, mas também que a mucosa intestinal se encontre em perfeitas condições de integridade. O empobrecimento da flora intestinal ou a sua falta de maturação nas crianças pequenas, geralmente devido a fatores ambientais (administração de antibióticos, parto por cesariana, etc.) pode levar a um excesso de polarização Th2, que está na origem de uma maior sensibilidade.
O problema da sensibilidade aos pólenes é, muitas vezes, sistémico. O equilíbrio da microbiota depende em grande parte de condições exógenas: a alimentação e o ambiente, devido à presença de muitos poluentes químicos, principalmente nos países industrializados. Um episódio de poluição atmosférica pode ter efeitos nefastos sobre a microbiota, uma vez que as partículas finas e os poluentes atmosféricos têm influência sobre o destino de certas bactérias intestinais. Mas isto não é tudo...
Ao entrar em contacto com poluentes atmosféricos, a parede dos grãos de pólen deforma-se, libertando elementos sensibilizantes muito mais pequenos, que penetram mais profundamente na árvore respiratória humana. Estes elementos são um importante fator de risco, uma vez que os pólenes se tornam mais agressivos para pessoas sensíveis1, dependendo da qualidade do ar. Sabe-se, aliás, que a partir de finais do século XIX, o número de pessoas afetadas pela sensibilidade aos pólenes tem vindo a aumentar ao mesmo ritmo que a poluição atmosférica.
Toda a época dos pólenes! Dependendo da localização geográfica e das espécies plantadas, a sensibilidade deverá repetir-se em cada ano, no mesmo período. A sensibilidade aos pólenes pode desenvolver-se desde a infância, manifestando-se geralmente por volta dos 4 anos de idade, ou ao longo da vida, cruzada com uma qualquer intolerância alimentar. Medidas de precaução diárias, dessensibilização e um reequilíbrio da flora intestinal, conseguem atenuar as manifestações mais incomodativas (pele ou árvore respiratória).
Nos períodos mais sensíveis, é melhor ver bem aquilo que se põe no prato! Uma alimentação adaptada irá permitir passar melhor esse período, graças ao efeito combinado entre o prazer de comer e os compostos equilibrantes: quercetina, glutamina, vitaminas e oligoelementos.
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Os períodos de plena floração ou polinização estendem-se por uma grande parte do ano e não apenas com a chegada do bom tempo. Os pólenes das árvores desenvolvem-se mais entre fevereiro e maio, os pólenes das gramíneas de maio a julho, enquanto as espécies herbáceas e a ambrósia polinizam preferencialmente entre julho e outubro. Mas tudo isso varia de acordo com a localização geográfica! Os períodos de polinização podem ser diferentes entre o sul e o norte de um país. O aquecimento global, que prolonga as estações do ano e interrompe os ciclos naturais das plantas, permite uma maior difusão da quantidade dos pólenes em suspensão no ar.
Os pólenes das cupressáceas (família dos ciprestes), das betuláceas (bétula, aveleira, carpa-europeia) ou das oleáceas (fresno, oliveira) são os mais temidos. Quanto às herbáceas, às espermatófitas (plantas que dão sementes), às parietárias, à ambrósia e à artemísia, têm um forte poder alergizante e podem provocar uma alteração na qualidade de vida.
Face à dimensão do fenómeno, foram criadas várias redes de vigilância, entre as quais a Rede Nacional de Vigilância Aerobiológica (RNSA). Os alertas polínicos da RNSA são divulgados através do site https://www.pollens.fr que fornece dados constantemente atualizados. A consulta deste boletim polínico permite-lhe levar a cabo ações concretas de prevenção.
A sensibilidade aos pólenes não se resolve espontaneamente e é preciso alguma paciência para dessensibilizar o organismo. No entanto, a combinação de medidas preventivas (escolha de uma alimentação equilibrada para o intestino) e o respeito por algumas precauções em passeios ao ar livre, permite limitar os efeitos.
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1 Rede nacional de vigilância aerobiológica